
Quem sou?
Nasci com o mundo dentro de uma caixinha imensamente miúda. Acreditava que o Japão era logo ali, escondido. Sabia que facilmente o encontraria se algum dia desafiasse o caminho eleito certo. Imaginava os aviões subindo em linha reta, e me perguntava por que os pilotos não seguiam o óbvio. Era só subir. Então aprendi: Existia outro Belém além do Pará. Jesus não era brasileiro.
Antes de dormir, repetia baixinho o que havia me encontrado um dia: Jesus ama. Jesus morreu por nós. E mesmo que a vida tenha tirado o Desenho Bíblico Dominical e trocado por aulas noturnas da faculdade, essa frase nunca me deixou. Ela mora ali, entre bases memoriais, no mesmo quarto rosa dividido com Nicole.
Eu cresci. E crescer, às vezes, é um tipo de luto. Se encontrasse a Bel de dez anos atrás, eu diria: Ame mais o leite com chocolate do que as promessas de ser adulta. Crescer me tirou a Bebel, mas me deu a Bel. Me deu profundidade. Talvez maturidade de por os extremos no lugar. A fé que antes era simples virou fé que tropeça, que pergunta, que silencia, mas que, no escuro, continua.
E crescendo, recém-adulta, gasta-criança, conheci o Nordeste. Pernambuco. Ele me reformou, me remendou e me ensinou que o sol castiga e cura, que saudade é idioma e que o amor, quando é de verdade, tem gosto de Boa Viagem chuvosa e cheiro de Violeta Genciana. Descobri que, de lá, o que mais tenho presente, é a distância, e mesmo assim, o amor permanece bem pertinho.
Sigo acreditando que o Japão mora aqui do lado, que Jesus ainda me ama como naquele quarto rosa, e que o leite com chocolate sempre vai valer mais que as promessas, mas aprendi, que há esperança apesar do luto de crescer.
A MISSÃO
Em um dia, acordei sem identidade e quis me encontrar com aquela que sempre soube o que queria, com a parte de mim que tinha um olhar mais adocicado para com a vida. Como no filme A Dona da História, em que Carolina de meia-idade se encontra com a Carolina de dezoito anos e se pergunta como teria sido sua vida se tivesse feito outras escolhas, investiguei-me para entender o presente. Revi fotos, reli cartas, mergulhei em diários. Voltei a escrever, reencontrei amigos, assisti vídeos. Pouco a pouco a memória foi voltando, a comunicação se reestabelecendo, o branco dando lugar ao entendimento. Então, uma noite, recebi uma visita ilustre. Era a menina dos diários. Passamos a noite revendo histórias, compreendendo escolhas e aceitando os caminhos. No fim, ela me encarou com ternura, afirmando que fiz a escolha certa, que estou no lugar que sempre desejei estar, mesmo com os conflitos, as dúvidas e as mágoas.
“Isso faz parte da vida”, ela disse. E acrescentou: “Apesar de tudo, essa é a melhor versão da sua história. E pode ser uma benção se você compreender que não é porque o caminho está difícil que ele está errado.” Quando entendi isso, tratei de ser contente.
Trabalho em uma clínica que atende crianças atípicas, e ali, minha sensibilidade cresce, ainda mais para a vida, para as histórias e para as famílias. Sou inteiramente apaixonada pelos pequenos e pelo que representam, como também sou atraída por marcas nos rostos que contam histórias. Cristo se manifesta na bondade e leveza da vida. Há um tempo, recebi uma mensagem especial que dizia que Ele seria meu professor. Entendi ali que fotografia era cura.
Foi dessa missão que A Minha Câmera nasceu.

A B B A
é uma palavra de origem aramaica que significa "Papai".



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